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Brega & Chique

Este é um blogue de uma mulher portuguesa com todas as (f)utilidades inerentes a essa condição...

Reeditando "antiques": «O gajo problemático»

 

Minhas queridas: estou aqui hoje para vos falar desta variante de gajo, bem como para ver se alguma alminha iluminada me consegue dar umas dicas de como lidar com esta estirpe. De todo o tipo de gajo que conheço, este tem vindo a desenvolver-se proeminentemente nos últimos tempos, mas, como se trata de um fenómeno menos estereotipado e ainda menos óbvio, o seu estudo torna-se difícil, senão mesmo impossível.

 

Longe e saudosos vão os tempos em que éramos nós (as gajas) as complicadas. Éramos nós que não sabíamos o que queríamos, que nunca estávamos bem com o que tínhamos e que alternávamos os nossos humores de um momento para o outro sem razão aparente. Éramos assim porque éramos gajas e “as gajas são umas complicadas”, diziam eles e estava a coisa explicada. Então, por que razão aparecem cada vez mais estes sintomas nos gajos? Será porque, agora, nós sabemos o que queremos (e não temos medo de o dizer) e eles assustam-se? Será porque já não dependemos deles para nada e isso os deixa sem o papel de macho? Ou estarei eu aqui a fazer psicologia barata e a culpa é das alterações climáticas e dos genes malucos? Ou estarão mesmo os gajos a ficar malucos? Ou a querer fazer de nós malucas?...

 

Vamos aos factos: como caracterizar este gajo. O gajo problemático não se identifica à primeira vista, o que é logo um inconveniente muito grande. Enquanto que um fdp é facilmente topado à vista desarmada, com este gajo a coisa não procede do mesmo modo… e mais: não é imediata. Embora possam ocorrer alguns pormenores que nos possam alertar para este tipo, estes não são evidentes e não são decisivos para a catalogação do mesmo.

 

Duma coisa pode estar certa: este menino é um traumatizadinho, quer isso tenha fundamento ou não. Ou seja, mesmo que aquilo que o perturbou seja a coisa mais normal do mundo, este gajo acredita mesmo que foi (e é) um desgraçadinho. Os traumas podem ser de diversos tipos: a morte de alguém, a traição sofrida, o sonho que não concretizou, as dificuldades económicas por que passou, a exclusão social que sofreu, ter sido feio… sei lá. Whatever… e podem vir isoladas ou conjugadas (o que ainda é pior). E quanto mais tempo tiver passado sobre o trauma, pior é, porque o gajo (consciente ou inconscientemente) vai moldando e exagerando a causa do seu infortúnio ao ponto da memória do facto estar completamente distorcida da realidade. E mais: nem sequer tente minimizar as suas desgraças. Isso só vai fazer com que ele se afaste de si, porque isso fá-lo-á encará-la como alguém que não o compreende e que também só o quer é magoar, e que está a menosprezar a sua dor, etc, quando, na verdade, você pensa que só está a tentar ajudá-lo a superar a crise. É que o problema com estes gajos é esse. Ele NÃO quer realmente superar o problema. No fundo, é este seu sofrimento atroz que lhe dá prazer, tendo o gajo consciência ou não deste seu gozo.

 

Numa primeira fase, não se nota nada de anormal neste tipo. É um gajo absolutamente normal, que se aproxima de si duma forma natural e interage consigo e com os outros como se nada fosse. Contudo, depois da fase da aproximação ocorrer, começam os sinais mais visíveis. De um momento para o outro, depois de até aí se mostrar uma pessoa absolutamente normal, abre a boca e desembucha os pormenores da sua vida mais íntima, as coisas que supostamente nem com os amigos ou com a psicóloga desabafa. Em suma, conta-lhe tudo. Tudo, ao ponto de lhe contar coisas que nunca se devem dizer a uma gaja, sobretudo a uma com quem se “está”. E tudo duma vez, como uma tempestade tropical. Num momento está tudo muito lindo e muito soalheiro e logo a seguir está o oposto: a chuva é cerrada e nada de bom se vislumbra.

 

A pessoa fica a modos que embasbacada, e num esforço, consegue articular umas frases de conforto e de positivismo, tentando contrabalançar com algo de bom para compensar. O gajo cala-se e concorda passivamente e fica a pensar-se que o assunto está resolvido ou em vias disso. Enfim, o normal. Mas, na mente distorcida deste cromo não é assim…

 

A coisa passa (ou julga você que passou) e parece-lhe que tudo voltou a entrar nos eixos. Parece-lhe… Até que, de um momento para o outro, depara-se com reacções opostas e atitudes inconciliáveis… Ora o gajo lhe pede calma, ora está a falar de filhos e afins; num momento leva a relação de uma forma ligeira, no outro tem uma crise de ciúmes sem motivo nenhum; num dia nem um telefonema ou uma mensagem, no outro entope-lhe o telemóvel e deixa-a acordada até às tantas da manhã com mensagens ridículas; diz-lhe que as coisas têm de ir devagar quando está consigo, e depois liga-lhe a dizer que só lhe apetecia arrancar-lhe a roupa… Oremos, irmãos.

 

Quando confrontado com estes devaneios, o que o gajo faz? Fica amuado, claro! Whatelse? Se possível, mostra-se mais magoado ainda. Claro… Você é que é a insensível, é óbvio (para ele, claro…)! Você é que não compreende… As coisas são complicadas, não são assim tão simples… Talvez um dia você o compreenda… Sim, está certo que sim, que um dia compreenderá tudo. Mas, por agora… é muita coisa. Ele até compreende que você não compreenda… enfim… e você ainda vacila ali um momento (ou mais…) a puxar por todos os neurónios e todos os conhecimentos de psicologia que possui, a navegar na sua bola de cristal para ver se consegue ver o que ainda não viu, a descortinar todos os fragmentos das conversas que teve com ele para ver se lhe escapou alguma coisa importante ou se não deu a devida importância a alguma coisa, enfim, quase a delirar junto com ele… até que… numa altura em que se consegue distanciar um bocadinho mais desse grande problema que está a viver e que não é seu (nem dele verdadeiramente), dá-se conta que está a embarcar numa relação psicótica e que nem sequer tem formação para isso.

 

E é aí que você, completamente esgotada mentalmente e já quase a precisar também dum psicólogo, decide deixar de aturar gente tola, acorda para a vida, “entrega a Deus” e volta a apreciar as coisas simples da vida, em vez de viver em função de um guião escrito por um gajo problemático que, em vez de aproveitar a vida, se entretém em complicá-la.

 

Gajos problemáticos: tratem-se! Away...

 

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