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Brega & Chique

Este é um blogue de uma mulher portuguesa com todas as (f)utilidades inerentes a essa condição...

Reeditando "antiques": «Temos pena. Muuuita pena.»

 

Caríssimos: esta é a frase da década. Sério. Aprendi-a há uns anos e desde aí não hesito em usá-la. Experimentem dizê-la pausadamente e muito seguros de vocês mesmos: “temos pena”.

O “temos pena” serve para as mais variadas ocasiões, para os mais diversos motivos e para as mais diversas pessoas. Pode (ou não) vir acompanhada de gestos ou expressões faciais, bem como de mímica, sendo o olhar o factor determinante do impacto que quer dar à sua utilização. Pode ser proferida com um tipo declarativo ou exclamativo, sendo a sua forma enfática, “Temos muita pena” (Ler como “Temos muuuita pena./!).

 

Situação a)

Imagine que está numa discoteca da moda e esteve a dançar toda a noite. De repente, dá-se conta da “lei dos sapatos altos” e decide que já é tempo de “assentar arraiais” num qualquer poiso a “morder o ambiente”, porque parece mal simplesmente descalçar-se. Como está numa discoteca da moda, esses locais são praticamente inexistentes e procura já em desespero um local no grill. Mas nisto, vê do outro lado alguém que viu o mesmo que você, antes de você e que se apresenta mais próximo do alvo. Num esgar de esforço, consegue chegar lá primeiro e senta-se. A perua, com um ar incrédulo e vitimizado, diz-lhe: “Eu vi primeiro!”. O que é que lhe responde? “Temos pena.”. (Neste caso nem sequer precisa de exclamação, expressão facial ou mímica. Um simples olhar distante é suficiente).

 

Situação b)

Um artista qualquer, marca um encontro consigo. O fulano até é atraente e bem falante e você decide tentar a sua sorte, anuindo ao convite.

Acontece que, apanha uma valente seca de meia hora à espera, sem um telefonema do “cavalheiro”, tendo já tentado ligar para o dito telemóvel e verificado que o sr. se encontrava muito ocupado para atender. Quando a figura finalmente se digna a aparecer, dá-lhe aquela desculpa de “Lamento, mas estava a falar com um cliente muito importante e não podia desligar. O trânsito estava infernal e estou aqui com uma dorzita de cabeça…”

Reparou no pormenor da insistência do uso da 1ª pessoa? E você, que esteve ali a secar meia hora, que se lixe! O centro do universo é ele! Como se você tivesse a culpa de ele não a ter avisado, ou de ele não ter tirado tempo para o trânsito e até do raio da dor de cabeça! Não, a sua função ali era compreender a excelência, sem que ele se tivesse preocupado minimamente consigo!

Passados uns tempos, o mesmo artista torna a convidá-la para uma porcaria de um programa qualquer. Você decide dar-lhe uma lição e à hora do encontro simplesmente desliga o telemóvel. Ao ligar o aparelho no dia seguinte, encontra uma série de mensagens que variam de um estado calmo, no início, a danado, no fim. À hora do almoço, finalmente atende-lhe a chamada.

Ele:”Então? O que se passou ontem?”

Você: “Olha, eu já saí tarde do emprego, eu atrasei-me, eu fiquei sem bateria no telemóvel e eu acabei por jantar onde estava, porque eu estava cheia de fome. Temos pena!”

 

Situação c)

Sai um novo romance de um autor que você adora. Como é fã, dirige-se à livraria mais próxima (há que incentivar o comércio local) e pergunta pelo livro. A vendedora, de nariz empinado, responde-lhe que, no momento, ainda não o receberam, mas que, no máximo em dois dias, o terão disponível. Você encomenda-o, já um bocado a sentir-se como a uma criança a quem roubaram o doce. Volta lá dois dias depois, três, quatro, cinco, seis… até que se chateia com a resposta sempre empinada da vendedora (“Amanhã, de certeza!”). Como tal, vai a um hipermercado e não só adquire o doce como ainda paga menos.

Passados 15 dias, volta à livraria para comprar uma porcaria qualquer, tipo, minas, que estava a precisar naquele momento e não podia esperar mais e a arrogante vendedora diz-lhe: “Olhe que o seu livro já chegou!” Resposta imediata: “Temos pena. Temos muita pena, talvez possa vendê-lo a alguém que o tenha pedido há 2 dias…” (com ar de pena cínica)

 

Situação d)

Toda a gente tem uma daquelas “amigas” que só se aproximam de si por interesse. Ou porque lhe vai fazendo uns favorzinhos, ou porque você é uma pessoa discreta e ela sabe que pode desabafar consigo à vontade, ou porque até tem uns amigos interessantes que ela quer conhecer, ou simplesmente porque, na verdade, ela não tem verdadeiramente amigos e quando precisa de sair, dá-se conta que não tem mais ninguém para a aturar, a não ser a si.

Das raríssimas vezes que você precisa dela, ela tem sempre algo muito mais importante para fazer, nem que seja estar a ouvir anedotas dum gajo ao lado num bar, mesmo que do outro lado do telefone você esteja lavada em lágrimas.

Você “vai levando a coisa”, até porque conhece a “amiga” há alguns anos, têm amigos em comum e não está para se chatear. Só que… chega um dia em que “a mostarda lhe chega ao nariz”, já depois de alguns avisos feitos à navegação.

Vai daí, a menina tem uma das suas costumeiras crises existenciais ou amorosas e resolve, como quase sempre, recorrer a si. O que fazer nessa altura? Responda-lhe da seguinte forma: “Olha, temos pena. Temos muuita pena, mas neste momento vou dar banho aos meus gatos. Fica para outra altura.”

 

Situação e)

Esta é a expoente máxima para a utilização desta sapiente máxima. É o clímax.

Toda a gente já teve aquela pessoa na sua vida por quem fez tudo. Por essa pessoa cometemos as maiores loucuras e tivemos a maior paciência do mundo. Chorámos, sofremos, às vezes, humilhámo-nos e até caímos no ridículo. E para quê? Para ele ou ela pegar nos nossos sentimentos, amachucá-los muito bem amachucadinhos e fazer pontaria para o caixote do lixo. E aí, lá andámos nós, tempos que nos pareceram infinitos, a juntar os caquinhos que sobraram da nossa dignidade e a reaprender a viver a vida sem o emplastro.

Até que… Um belo dia, o cromo acorda e lembra-se que foi um asno. De repente, dá-se conta que não pode viver sem nós, que cometeu um erro hediondo e que só continuará a existir se o perdoarmos…

Já adivinhou a resposta, certo? “Temos pena. Temos muuuita pena!”. E neste caso, utilize tudo: exclamação, gestos faciais, mímica, o escambal!

 

As aplicações deste magnífico axioma são muitas e variadas. Estou certa de que encontrarão muitas mais situações do dia-a-dia e outras mais relevantes em que o poderão utilizar.

Contra-indicações: Não se admire de alguma reacção menos conformada e irada da parte do seu interlocutor, quando usar esta expressão. É que a sua força pode ser tal, que pode despoletar uma resposta algo violenta…

 

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