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Brega & Chique

Este é um blogue de uma mulher portuguesa com todas as (f)utilidades inerentes a essa condição...

Sobre o Festival da Eurovisão...

 Pois é, caríssimos... Portugal participa no Festival da Eurovisão desde 1964... Já lá vão uns anitos, não...? Claro que, nessa altura aqui a "je" ainda não era nascida, mas isso não impede que se conheça a música que foi produzida nesses anos e que é lembrada até aos dias de hoje... Nomes de intérpretes como Tonicha, Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Madalena Iglesias e, claro, a grande Simone de Oliveira, entre outros, ficarão para sempre associados a esse grande evento, bem como as composições e letras fantásticas de muitos, como o enorme José Carlos Ary dos Santos. Em tempos em que era perigoso ser artista, pois a censura era apertada, conseguia-se, ainda assim, passar mensagens (ainda que metaforicamente) como na canção «Tourada», cantada por Fernando Tordo... ou em versos como "milho vermelho" (com conotação comunista) na «Desfolhada Portuguesa» ou até versos muito polémicos para a época como "quem faz um filho fá-lo por gosto"... Os poemas, sim... os POEMAS que se escreviam como letra dessas músicas intemporais eram simplesmente riquíssimos e não as algaraviadas que se foram escutando mais recentemente... Ah, e os cantores, eram, de facto, cantores e não uma espécie de "gritadores profissionais" ou "declamadores musicados" ou outra coisa qualquer... Aqui fica o exemplo do Paulo de Carvalho, com uma das músicas que, aliás, serviu como um "sinal" para a revolução do 25 de abril:

 

 

Mas as minhas memórias de infância levam-me ao ano de 1981 e a Carlos Paião com o tema «Playback». Um excelente compositor, que morreu prematuramente, mas cujo legado deixou até hoje. Jamais me esquecerei das suas músicas e da sua postura. É a primeira música de que verdadeiramente me recordo. Naquele tempo, o Festival da Eurovisão (à semelhança da abertura dos jogos olímpicos) era um grande evento. O país parava para ver. Em minha casa jantava-se cedo e ali ficávamos a ver e a opinar, claro, tentando adivinhar o que aquelas letras em línguas esquisitas quereriam significar. A Espanha dava-nos sempre uns pontitos como bons "nuestros hermanos" e nós retribuíamos. Faziam-se uns mini filmes (que podiam promover os respetivos países) e informavam sobre os intérpretes e o tema das músicas e vestia-se a rigor nas apresentações. Ah, e a orquestra estava lá e via-se, com destaque para os respetivos maestros.

 

 

 E depois vieram as Doce que trouxeram a irreverência ao Festival, a Dora, a Adelaide Ferreira, a Nucha, a grande Dulce Pontes, a Sara Tavares, a Dina e muitos outros com prestações que foram oscilando na qualidade. Lembro-me que a última vez que realmente vibrei com o Festival com os Da Vinci e a sua canção "Conquistador". A partir da Lúcia Moniz desinteressei-me por completo. Fui-me apercebendo que no Festival da Eurovisão mandavam muitos interesses e muita politiquice e quando comecei a ouvir cantar os intérpretes numa língua estrangeira, foi a gota de água... Mas, enfim, achava eu que "a coisa" continuava a ser revestida por pompa e circunstância e que o evento se fosse mantendo mais ou menos fiel a um ritual cerimonioso, com um nível elevado...

 

 

Com toda a polémica que tenho ouvido este ano por causa do nosso representante Salvador, resolvi ontem dar uma olhadela ao evento... Felizmente para mim, não apanhei o programa completo, mas o que vi, bastou-me... Inicialmente, confesso, mantive a minha boca aberta por tempo indeterminado, perguntando-me a mim própria se o que estava a ver era, de facto, o Festival da Eurovisão...

 

Para começo de conversa, tive que me atualizar na geografia... não sabia que a Europa, agora, contava com países como a Austrália... o que é bom para quando quiser ir ver os cangurus, pois assim já não preciso de passaporte, sequer... E eu que pensava que a Austrália era do outro lado do mundo... Rai's partam as mudanças climáticas que até deslocam países!

 

Depois, foi impressão minha ou quase ninguém usou a sua língua materna?!!! Thanks God por me permitires perceber a canção do meu próprio país!!! Já agora, sugiro que, já que não é para cantar na língua do próprio país, que se institua uma língua única por ano. Ao menos, sempre era mais democrático...

 

A orquestra, nem a vi (muito menos maestros), mas ouvi claramente os sintetizadores, os "punch punch, catrapum" eletrónicos e afins, típicos da banda sonora dos carrinhos de choque... What the hell...?!??

 

As luzes e efeitos especiais dominavam tudo! Por momentos, até pensei tratar-se de uma arena marciana... Mais parecia um circo espacial com inspiração nos «Hunger Games» e nos videojogos, a julgar por alguns figurinos e adereços que pude observar. Toda a pompa e circunstância havia desaparecido... Mais uma vez, Salvador, obrigada por, ao menos, te vestires como um humano...

 

As músicas e as letras... bem... na sua maioria, pareciam referir-se a um qualquer universo paralelo saído da «Twilight Zone»... ou duma rave num local inóspito...

 

Posto tudo isto, meus amigos, estou-me completamente a borrifar se o nosso estimado intérprete tem tiques ou não, não vai a um barbeiro decente e usa roupas demasiado grandes para ele! De TODOS, destacou-se por cantar uma bela música, em português, com um bonito poema e com uma melodia que não feria os ouvidos! Agora, entendo toda a empolgação com o garoto! Conseguimos ter alguém normal no festival e não aquelas aberrações distorcidas com mil e um efeitos especiais, gritos, coreografias e figurinos mirabolantes! O Salvador foi lá cantar. E cantou! O mesmo já não se poderá afirmar da maioria... Portanto, este ano, pela primeira vez em muiiiitooosss anos, vou ver a final e torcer por uma das poucas canções europeias que lá hão de estar!

 

 

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