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Brega & Chique

Este é um blogue de uma mulher portuguesa com todas as (f)utilidades inerentes a essa condição...

Dois em um: «O doente inglês» de Michael Ondaatje e «O paciente inglês», de Anthony Minghella

 Para quem não tenciona sair de casa no fim de semana, deixo aqui estas duas sugestões: «O doente inglês», de Michael Ondaatje e «O paciente inglês», um filme baseado no livro, com realização de Anthony Minghella.

 

Primeiro, vi o filme. Trata-se de um filme de 1996, que angariou a "módica" coleção de 9 óscares, para além de 2 globos de ouro e outros prémios. É um dos filmes que já vi várias vezes e que continua a comover-me.

 

Quanto à história, passa-se no final da Segunda Guerra Mundial. Um desconhecido que teve queimaduras generalizadas quando o seu avião foi abatido e é conhecido apenas como "o paciente inglês" (que, ao fim e ao cabo nem sequer era dessa nacionalidade) acaba por receber os cuidados de uma enfermeira, Hana. Gradualmente ele começa a narrar o grande envolvimento que teve com uma mulher e de como este amor foi fortemente correspondido. Mas da mesma forma que determinadas lembranças lhe surgem na mente, outros detalhes parecem não vir à memória, como se ele quisesse que tais factos continuassem enterrados e esquecidos.

 

Contudo, o filme não é "só" esta apaixonante história de amor. Tem um palco de guerra, política e culturas divergentes. Refere-se a sentimentos como o amor, a raiva, a amizade e a traição. E à falta de sorte também... a coisas que parece que estavam à partida condenadas. A densidade psicológica das personagens é bastante intensa e complexa. É preciso percebê-las bem. Mas o elenco é de luxo e "facilita-nos" o trabalho, com atores como Colin Firth, Juliete Binoche, Ralph Fiennes e Willem Dafoe.

 

Uns anos mais tarde, li o livro, de Michael Ondaatje, vencedor do prémio Booker Prize, o mais conceituado prémio literário inglês. À semelhança de outros filmes/ livros estava à espera de gostar ainda mais do livro... Mas, não... Fiquei desiludida. Não sei se foi do tipo de escrita, se do que foi, mas não gostei tanto como do filme. Fui, então, rever o filme para ver se a ideia que tinha estava deturpada, mas não. Ainda fiquei a gostar mais do filme. É questão de experimentarem. Comecem pelo livro, desta vez...

 

Aqui fica o trailer do filme para seduzir:

 

Reeditando "antiques": Livro de cabeceira «Seara de Vento», de Manuel da Fonseca

 

Manuel da Fonseca descreve-nos com alguma ficção um caso que ocorreu na realidade, no Alentejo. Como escritor neorrealista que é, deixa-nos um retrato amargo da classe trabalhadora da época ditatorial. A miséria e o desespero de quem procura honestamente trabalhar para ganhar o pão da família e é impedido pelos entroncados interesses das classes dominantes. Uma situação extrema que leva ao desespero um injustiçado trabalhador que decide fazer justiça pelas próprias mãos.

No final da história, o escritor tem o cuidado de acrescentar extratos retirados dos jornais da época e relatos sobre o verdadeiro acontecimento.

 

“- Pois é verdade… Isto deu uma grande volta… Aquela raça dos lavradores antigos acabou-se… Os de hoje, se muito têm, mais desejam. Moram nas vilas, põem casa às amantes na cidade, não dão um passo sem ser de automóvel, inventam festas, não há cinemas nem teatros a que faltem. E para um estadão destes é preciso dinheiro e mais dinheiro. Nunca se fartam. Por isso é que eles açulam os feitores às canelas do pessoal, que nem o deixam respirar. Agora é tudo à má cara e de relógio na mão.

Júlia curva-se, movendo a cabeça.

- Uns tão ricos e outros sem nada… Até devia haver uma lei contra isto.

- Haver o quê?!... Estás parva. Pois se os ricos é que fazem as leis!”

 

“- Pois. Mas… há-de desculpar-me, o caso do roubo das sacas de cevada deu tanto que falar… O Palma roubou, foi preso, enfim… Se volto a prendê-lo por nova questão relacionada com o senhor, não faltará, aí na vila, quem se ponha logo do lado dele… Essa gente aproveita-se de tudo para criticar.

- Que me importam a mim as críticas? Era o que faltava!

- De acordo. Mas temos tido tanto sarilho nestes últimos tempos. A falta de trabalho traz os ânimos irritados.

- Se traz!... Aí pelos campos até pensam em vir à vila, em grande representação, com pedidos ao presidente da Câmara. Já sabia?

- Chegaram-me uns zunzuns…

- Então, que espera para resolver o meu caso?

- São assuntos diferentes, acho eu.

- Pois são. No entanto, neste momento, era um bom aviso.

Sargento Gil, por instantes, conserva-se calado. Passa, devagar, a mão pela calva, apertando as farripas contra o crânio.

- Vou ser mais claro. Eu, senhor Elias Sobral, queria dizer-lhe que há muitas maneiras de fazer as coisas…”

 

“Uma bala rasga-lhe o ombro. Outra roça-lhe a cara, chapa-se na parede, rente à orelha, e risca-lhe a face de sangue até ao queixo, como um golpe de navalha. Antes de conseguir refugiar-se, a terceira fura-lhe o sovaco, e sai pelas costas. Sente uma vertigem, as paredes como que oscilam, e desaba de borco sobre as lajes. Abre os olhos, muito pálido, de braços estendidos, as mãos a tactearem a cinza. Um bicho no fojo. Um bicho caçado.

Em labaredas, as enxergas e os trapos, incendiados pelas balas, pegam fogo ao tabique. O fumo sobe até às telhas, e reflui, invadindo todo o casebre. Já não se vê de um lado para o outro, mas os tiros desferidos do terreiro continuam, ininterruptos.”

Livro de cabeceira – “Crónicas dos Feitos dos Furões – Da Conquista da Musa Interior” , de Richard Bach

 

Aí está um livro para crianças pequenas e grandes. Os furões surgem personificados em termos de emoções, sentimentos e aspirações, embora mantenham o seu aspecto físico.

A história roda em torno das personagens principais, Ricardo Furão e Sandrine Furão, que se tornam um casal de escritores famosos. O tema principal recai sobre Ricardo Furão na busca da “musa interior” que inspira a sua escrita. Na verdade, ele passa por um processo de autoconhecimento e aceitação do tipo de escrita que cria.

Um livro leve, com uma mensagem facilmente captada pelas crianças e muitas vezes esquecida pelos adultos.

Aqui ficam alguns extractos:

 

“Mas, como bem sabia, não são as letras que fazem um escritor. São as ideias, as personagens que tomam vida, o alfabeto que se transforma numa rede de luz que se lança e obtém os rodopios dos ques e dos ses, dos moinhos de vento do espírito, arrastando-os para o prazer de espíritos semelhantes.”

 

“Um escritor profissional é um amador que não desiste”

 

“É isto que é escrever, pensou. Guarda-se uma imagem cá dentro, gosta-se dela e entrega-se ao leitor para a partilhar. Imagens, ideias, personagens, diálogo, tudo isto aparece como se fossem archotes, para aquecer e iluminar e para que os passemos de mão em mão.”

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