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Brega & Chique

Este é um blogue de uma mulher portuguesa com todas as (f)utilidades inerentes a essa condição...

Reeditando "antiques": Livro de cabeceira «Seara de Vento», de Manuel da Fonseca

 

Manuel da Fonseca descreve-nos com alguma ficção um caso que ocorreu na realidade, no Alentejo. Como escritor neorrealista que é, deixa-nos um retrato amargo da classe trabalhadora da época ditatorial. A miséria e o desespero de quem procura honestamente trabalhar para ganhar o pão da família e é impedido pelos entroncados interesses das classes dominantes. Uma situação extrema que leva ao desespero um injustiçado trabalhador que decide fazer justiça pelas próprias mãos.

No final da história, o escritor tem o cuidado de acrescentar extratos retirados dos jornais da época e relatos sobre o verdadeiro acontecimento.

 

“- Pois é verdade… Isto deu uma grande volta… Aquela raça dos lavradores antigos acabou-se… Os de hoje, se muito têm, mais desejam. Moram nas vilas, põem casa às amantes na cidade, não dão um passo sem ser de automóvel, inventam festas, não há cinemas nem teatros a que faltem. E para um estadão destes é preciso dinheiro e mais dinheiro. Nunca se fartam. Por isso é que eles açulam os feitores às canelas do pessoal, que nem o deixam respirar. Agora é tudo à má cara e de relógio na mão.

Júlia curva-se, movendo a cabeça.

- Uns tão ricos e outros sem nada… Até devia haver uma lei contra isto.

- Haver o quê?!... Estás parva. Pois se os ricos é que fazem as leis!”

 

“- Pois. Mas… há-de desculpar-me, o caso do roubo das sacas de cevada deu tanto que falar… O Palma roubou, foi preso, enfim… Se volto a prendê-lo por nova questão relacionada com o senhor, não faltará, aí na vila, quem se ponha logo do lado dele… Essa gente aproveita-se de tudo para criticar.

- Que me importam a mim as críticas? Era o que faltava!

- De acordo. Mas temos tido tanto sarilho nestes últimos tempos. A falta de trabalho traz os ânimos irritados.

- Se traz!... Aí pelos campos até pensam em vir à vila, em grande representação, com pedidos ao presidente da Câmara. Já sabia?

- Chegaram-me uns zunzuns…

- Então, que espera para resolver o meu caso?

- São assuntos diferentes, acho eu.

- Pois são. No entanto, neste momento, era um bom aviso.

Sargento Gil, por instantes, conserva-se calado. Passa, devagar, a mão pela calva, apertando as farripas contra o crânio.

- Vou ser mais claro. Eu, senhor Elias Sobral, queria dizer-lhe que há muitas maneiras de fazer as coisas…”

 

“Uma bala rasga-lhe o ombro. Outra roça-lhe a cara, chapa-se na parede, rente à orelha, e risca-lhe a face de sangue até ao queixo, como um golpe de navalha. Antes de conseguir refugiar-se, a terceira fura-lhe o sovaco, e sai pelas costas. Sente uma vertigem, as paredes como que oscilam, e desaba de borco sobre as lajes. Abre os olhos, muito pálido, de braços estendidos, as mãos a tactearem a cinza. Um bicho no fojo. Um bicho caçado.

Em labaredas, as enxergas e os trapos, incendiados pelas balas, pegam fogo ao tabique. O fumo sobe até às telhas, e reflui, invadindo todo o casebre. Já não se vê de um lado para o outro, mas os tiros desferidos do terreiro continuam, ininterruptos.”

Livro de cabeceira – “Crónicas dos Feitos dos Furões – Da Conquista da Musa Interior” , de Richard Bach

 

Aí está um livro para crianças pequenas e grandes. Os furões surgem personificados em termos de emoções, sentimentos e aspirações, embora mantenham o seu aspecto físico.

A história roda em torno das personagens principais, Ricardo Furão e Sandrine Furão, que se tornam um casal de escritores famosos. O tema principal recai sobre Ricardo Furão na busca da “musa interior” que inspira a sua escrita. Na verdade, ele passa por um processo de autoconhecimento e aceitação do tipo de escrita que cria.

Um livro leve, com uma mensagem facilmente captada pelas crianças e muitas vezes esquecida pelos adultos.

Aqui ficam alguns extractos:

 

“Mas, como bem sabia, não são as letras que fazem um escritor. São as ideias, as personagens que tomam vida, o alfabeto que se transforma numa rede de luz que se lança e obtém os rodopios dos ques e dos ses, dos moinhos de vento do espírito, arrastando-os para o prazer de espíritos semelhantes.”

 

“Um escritor profissional é um amador que não desiste”

 

“É isto que é escrever, pensou. Guarda-se uma imagem cá dentro, gosta-se dela e entrega-se ao leitor para a partilhar. Imagens, ideias, personagens, diálogo, tudo isto aparece como se fossem archotes, para aquecer e iluminar e para que os passemos de mão em mão.”

Reeditando "antiques": Livros: «A Casa Quieta», de Rodrigo Guedes de Carvalho

 

Este livro fez-me lembrar «As Naus» de Lobo Antunes. O estilo é o mesmo com as diferentes vozes narrativas que se alternam constantemente (embora de uma forma mais clara).

O tema da colonização/ descolonização e guerra de África também está lá, embora abordado de outra forma.

Enquanto Lobo Antunes parodia a História e os vultos portugueses com o intuito de criticar a "Lixboa" (lixo) a servir como metonímia de Portugal, em que S. Francisco Xavier, por exemplo, era proxeneta, Rodrigo Guedes de Carvalho escolhe pessoas reais, concretas, mais expostas e talvez menos estereotipadas.

Abrange ainda outros temas como a morte, as doenças terminais, as relações conjugais, a infidelidade, as relações pais-filhos em duas gerações distintas, retrata o consumismo da sociedade actual, o egoísmo, o alheamento... e tudo isto com um tratamento temporal diferente.

Começa a narrativa em 2005 (de Novembro até Fevereiro, por esta ordem), depois recua até 1985 (de Janeiro até Março), avança a 1995 (de Abril e Maio), regressando a 2005 (de Junho a Dezembro).

Um livro que nos obriga a reflectir sobre o mundo em que vivemos e de que forma o fazemos.

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